Arte & Cultura.

Profecias musicadas



"Na virada do século, alvorada voraz, nos aguardam exércitos, que nos guardam da paz. Que paz?!
A face do mal, um grito de horror, um fato normal, um êxtase de dor e medo de tudo, medo do nada, medo da vida, assim engatilhada.
 
Fardas e forças, forjam as armações. Farsas e jogos, armas de fogo, um corte exposto, em seu rosto amor, e eu, nesse mundo assim, vendo esse filme passar, assistindo ao fim, vendo esse filme passar.
 
Apolípticamente, como num clipe de ação, um clic seco um revólver, aponta em meu coração.
 
O caso Morel, o crime da mala, Coroa-Brastel, o escândalo das jóias, e o contrabando, um bando de gente importante envolvida juram que não torturam ninguém, agem assim, pro seu próprio bem.

São tão legais, foras da lei, e sabem de tudo, o que eu não sei, não. Nesse mundo assim, vendo esse filme passar, assistindo ao fim, vendo o meu tempo passar..."

A canção "Alvorada Voraz" foi, dentre muitas, escolhida por mim, para ilustrar esse texto. Lançada em 1987, composta por Luis Schiavon, Paulo Pagni e Paulo Ricardo e presente no álbum Revoluções Por Minuto do RPM, retrata muito bem uma situação atemporal da vida política do nosso país. Na realidade, esse sistema de roubo, engano e corrupção já nos persegue diuturnamente como praga imposta por políticos cada vez mais larápios e desonestos. A arte, que na década de 60 foi amordaça pela ditadura, aqui se expressa através de canções que denunciam não só uma situação de exclusão de direitos, mas de um caos amiúde, irreversível e desumano. Canções, que na feitura do seu texto, se atrelam a uma poesia mórbida, para tornar explícita uma balança de desigualdades e injustiças, na qual de um lado está o povo, e do outro, a classe governante, que é paga por um preço extremamente alto pelo próprio povo para que através desses altíssimos impostos, possam distribuir uma vida digna para essa população cada vez mais sofrida e usurpada.

E assim, vão-se usurpando as chances mais ínfimas da concretização de um sonho de uma vida digna. Quando dentre as músicas proféticas relembramos que "toda forma de poder é uma forma de morrer por nada" vamos nitidamente ilustrando no "sub" consciente uma pré visão de que "a história se repete novamente ignorante e fascinada, que a porra toda sempre esteve errada e que não precisa mais prestar atenção no que eles dizem porque eles nunca disseram nada, nada, nada, nada..... além daquilo que sempre soubemos.


Quando Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, lançava na década de 80 o hit que indagava que país é esse? A resposta sempre foi clara. Eis o Brasil das injustiças, eis o Brasil que imbute na cartilha educacional o jeitinho brasileiro de ser, eis o Brasil onde ser político não é sinônimo de servo do povo, mas de ser patrão de si mesmo. Caminhando e cantando uma marcha fúnebre que leva para o túmulo a qualidade da nossa educação, da nossa saúde, da nossa segurança, da nossa infra estrutura, e o que é bem pior, da nossa fé de que dias melhores nos cheguem. Alô! Alô marcianos! Aqui quem fala é um cidadão distante do High Society, mas que não está down por isso, está down exatamente por ter caminhado por perto e não suportado a fedentina da putrefação do perfume chanel número 171.


Enquanto eles dormem nos lençóis de seda que nós patrocinamos, crianças tentam dormir ao relento, tremendo de frio. Que sono é esse? Será o sono dos justos? Como dormir em paz sabendo que são os assassinos dos que morrem à míngua nas filas de hospitais sucateados? Como dormir em paz sabendo que são responsáveis pela falta da merenda nas escolas? É preciso ter sangue de barata e coração de pedra para ter consciência de que todo e qualquer roubo da coisa pública implica diretamente na instalação do caos. A arte que se mostra indignada através da poética da música, adentra em nossos tímpanos a bastante tempo. Mas creio eu que nada ficará impune, creio eu que essa vida de corrupção que patrocina o luxo não vale a pena, porque ela não se findará com a chegada da morte. Deixa estar larápios do povo! A prestação de contas não será no plano terreno, será num plano muito maior, onde preços e valores realmente se distinguem, sendo portanto, impossível comprar a dignidade. E que através de um ficha criminal monitorada por um olho onipresente, não será preciso mais apelar e nem perguntar: Brasil! Óh grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair. Por favor, Responde! Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim.


Izaqueu Nascimento


2 comentários:

  1. Belíssimo texto real contemporâneo visceral. Assistimos e vivenciamos a profecia mmusicada. Brasil mostra a tua cara somos nós que bancamos nossa escravidão!

    ResponderExcluir
  2. Belíssimo texto real contemporâneo visceral. Assistimos e vivenciamos a profecia mmusicada. Brasil mostra a tua cara somos nós que bancamos nossa escravidão!

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.