Arte & Cultura.

Relatos Selvagens: o filme nosso de cada dia


 

Quem nunca perdeu as estribeiras que atire a primeira pedra! Pois então. Qual o limite para a nossa sensatez e o nosso desequilíbrio? Algumas pessoas em proporções gigantes, outras em escalas mais contidas. Como é interessante se ver na arte. No filme argentino Relatos selvagens, lançado em 2015, é exatamente isso que ocorre: O ser humano na berlinda, ali exposto, entre riso e tensão, entre recuar, parar ou proseguir. Dentre centenas de histórias que já assisti no cinema e fora dele, esse filme é certamente, aquele que está entre os meus prediletos. Para quem me conhece não é novidade que prefiro sempre as histórias do cotidiano, aquelas das quais eu posso trazer como espelho e aprendizado para as minhas próprias vivências e reflexões. Um filme que explicita seis episódios e cada um com um questionamento idem: E se fosse eu ali? 

Questões que permeiam o universo humano em riste. Desde a traição ao sentimento de vingança, de extravasar o nó da garganta ou chutar literalmente o pau da barraca e assistir de camarote o circo pegar fogo. De se deleitar ao ver o outro pagar com a mesma moeda o mal que nos causou. De se perguntar até onde vale a pena esperar pela justiça ou fazer a justiça com as próprias mãos. Um filme que pincela acontecimentos com um humor ácido, em cenas que nivelam as ações mais estapafúrdias e as consequências mais drásticas. Eis o humano. Eis o nosso limite. Eis o eco do nosso grito que anseia em ser ouvido mas que foi amordaçado. Até onde vai a nossa honestidade quando na zona de risco se encontram quem ou o que mais amamos? Como fica a vontade de lidar com um sistema que nos oprime e nos faz reféns de nós mesmos?  Paciência, compreensão, amor, tolerância, ira, ternura, complacência, revide e desespero são temperos que aguçam a sopa que vamos tomando ao ver esse filme, mas o mais importante de tudo é não saber de que forma nós fomos nutridos por ela. Porque não se iludam! Na ponta desse iceberg poderemos sim ser pegos de surpresa com o inusitado do nosso próprio reflexo. Sabe aquela dúvida que sempre paira nas nossas ideias. Aquela que diz: Olha só! Eu tenho uma personalidade formada mas eu sinceramente não sei como reagiria porque nunca passei por isso. Pois então. Para quem não viu o filme, eu mais do que recomendo. E devo dizer que gosto de tudo: trilha sonora, direção, elenco, roteiro e até da distribuidora do meu queridíssimo Almodóvar. Aliás, tinha que ser. Não sei o que vocês sentiram ou sentirão ao vê-lo, mas Relatos selvagens é sem dúvida, um dos poucos filmes que eu, particularmente, tive vontade de aplaudir de pé.

Izaqueu Nascimento

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