Arte & Cultura.

A nudez nas artes



Hoje irei falar dos corpos sem roupas numa fotografia, na penumbra ou no holofote da cena teatral,  pintados numa tela ou esculpidos na argila e moldados ao prisma dos artistas que se propõem ao nu artístico. E como poderíamos definir uma nudez com arte?



A princípio, eu poderia dizer que quando adentramos no templo sagrado de uma criação artística, é mister que o autor da obra de arte esteja inteiramente centrado no que se propunha a fazer. Mas será que essa regra (se é que poderíamos chamar de tal modo) não tem exceções? E será mesmo que essa via de regra se equipara a todos os artistas num mesmo nivelamento criativo? Digo isso no sentido de mesmo que se queira chegar a determinado ponto, o artista, por alguns momentos, talvez nem saiba por onde começar.



No campo da exploração das nuances do corpo, seja para a fotografia, teatro, pintura ou escultura, é comum ir descobrindo resultados no desmembramento da feitura. Porém, é natural que  ele fidelize a essência do que quer expressar e de como quer expressar: A nudez que choca, a nudez que intiga reflexão, a nudez que encanta ou repele, a nudez que salta aos olhos de quem contempla... As sensações para uma mesma obra podem e sempre acontecem em formatos amplamente distintos dependendo da leitura de mundo de quem a aprecia. Um quadro pintado de um corpo nu pode me parecer vulgar e feio, mas para outros pode soar como provocativo ou como um instrumento de combate ao pudor e/ou meramente como uma forma de ir de encontro à qualquer tipo de repressão. Tudo isso pra dizer que os caminhos que nos levam à uma definição exata do nu artístico não podem deter uma verdade absoluta.


Por muitos e muitos séculos a nudez foi e ainda é um tabu. Apesar da expansão dos campos e práticas naturalistas, apesar da ampliação de ideias, apesar de estarmos numa geração pós topless e Woodstock, ainda nos deparamos com a resistência de olhar o nu com naturalidade, e quando isso vai para o âmbito da arte essa resistência também ainda está em voga. Ou seja, a plasticidade estetica é mais aceptivel quando soa como bela ou sensual. E em que parâmetros se demonstram e se acentuam a beleza e a sensualidade numa obra de arte?

A atriz Clarice Niskier que ganhou o prêmio Shell de melhor atriz em 2007 pela sua atuação no monólogo "A alma imoral", onde aparece praticamente nua envolta apenas por um longo tecido preto no qual faz dele seu figurino no transcorrer da peça, fala que há três tipos de nudez em cena: A física, a espiritual e a emocional. E quando questionada sobre a beleza da estética, a atriz responde que o mercado usa uma citação do Vinicius de Moraes – ‘as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental’ – de forma equivocada. Quando o poeta disse isso, ele, na verdade, não estava criando um padrão do que é belo. Estava dizendo que haver beleza é fundamental. Já o artista dos cliques JR Duran diz que só se consegue fazer o que quer com a câmera quando a sua lente capta o que ele almeja e não o que as pessoas enxergam. E diz que não adianta ter a beleza estética se a expressão do olhar não convence.



Eu, na minha visão de artista, educador e apreciador das artes, sempre respondo pros meus alunos essa pergunta (o que é um nu artístico?) da seguinte forma: Quando essa nudez consegue nos tocar das formas mais pluralizadas que existem. Por exemplo: É natural que uma mãe que perdeu o filho no parto se emocione vendo fotos de mulheres grávidas nuas, mas se essas fotos conseguirem transmutar para outras mães (que também sofreram uma mesma perda) um sentimento de ternura e não de lamento, creio que é exatamente nesse momento que a arte vai cumprindo o seu papel. O mesmo acontece para outras manifestações de arte onde o nu se insere. Porque a arte não se faz de forma gratuita, penso que a arte sempre pode e deve assumir um propósito de instigar emoções diversas e metamorfoses de comportamentos no sentido de nos instigar e nos modificar, de preferência, para uma versão "instintivamente" melhorada de nós mesmos: provocando nossos desejos e pudores, nossos tabus, nossos paradigmas, e consequentemente, nossos próprios conceitos e "pré" conceitos, não só de lidar com as nuances do corpo que nos pertence, mas principalmente de lidar com as nuances do corpo pertencente aos outros.


NUDEZ

Embrulho-te com tecidos de finas fibras.
Efêmeras,
tisgas,
paixões...
Como um estilista desenha o embrulhar dos corações e das solidões frívolas.
Sou como a tesoura que corta o setim:
Setando certeira com sua tática.
Sou como a veste esporádica,
que apesar do tempo,
dedica-se afinco.
...e neste labirinto
te visto com dedicação. E te embalo em meus sonhos com a minha fantasia.
És a primazia vestida de mim.
E sendo assim,
quando te dispo,
te desconheço.

Izaqueu Nascimento



















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