Arte & Cultura.

Uma obra de arte chamada “Mãe”




Ao escrever as primeiras linhas do texto desta semana, fiquei a indagar para mim mesmo até que ponto é indispensável a figura materna nos vínculos das expressões de onde figuram as artes. De repente ficou estranho pensar no fazer artístico dissociado da nossa progênie. Daí comecei a perceber que quando adentramos na sacralidade do amor genuino, inexorável e incondicional, não há como não se reportar ao amor de mãe, impossível separar esse vínculo que mesmo cortando o cordão umbilical no momento do parto permanece atada aos filhos eternamente. Como ser artista sem ter em si o reflexo da mulher que o gera, que coloca em suas mãos a dádiva de existir, que o concebe e o guarda no seu ventre por aproximadamente 270 dias alimentando-o e nutrindo-o não só com comida mas com um sentimento ímpar e de uma espera também ímpar, e que mesmo enjoando e sabendo que dar à luz requer resistência e coragem, e mesmo sentindo contrações e dissabores que permeiam a gestação, ainda assim, permanece feliz, firme e forte por saber que ao final das contas, dali surgirá uma extensão de sua própria vida.

Ser mãe é uma obra de arte. Daquelas que de tão especias fincam-se à casta da unicidade. Carlos Drummond de Andrade já expressou no seu verso “para sempre” que “ser mãe não tem limite. É tempo sem hora, luz que não se apaga quando sopra o vento e a chuva desaba”. E no mesmo verso, o mesmo artista das letras que no início do verso  pergunta a razão de Deus permitir que as mães vão-se embora, é o mesmo que no final assegura que “morrer só acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio, mas mãe, mãe na sua graça é eternidade”.

Michelângelo já esculpiu a dor materna de perder um filho na sua escultura “A Pietà”, onde Maria, mãe de Jesus Cristo, chora angustiadamente com o corpo de seu filho nos braços, mesmo sabendo que sua morte implicaria em vida. O artista de cordel já cantarolava em sua viola que “uma mãe é pra cem filhos e cem filhos não é pra uma mãe”. Ditado que se tornou popular sempre que se fala na ingratidão de um filho para com ela. Sim. E como há filho ingrato; e como há filho que não reconhece esse amor; e como há filho que deixa sua mãe num asilo, sem perceber que não há lugar mais perfeito para uma mãe do que estar próxima à sua prole; e como há filho que só constata o que perdeu, quando sua mãe não está mais com ele.

Sem mãe, mão teríamos vida. Quanto vale sua vida? Creio que nenhum tesouro do mundo pode pagar o amor de uma verdadeira mãe. E quando digo verdadeira, não quero dizer que mãe é só a biológica, ser mãe é olhar para um filho como se do seu ventre ele tivesse nascido, porque creio que esse amor não só se origina na gestação, esse amor é como um sacerdócio divino e imaculado. Daqueles que perdoa, acolhe e cuida como ninguém. Portanto, saibamos que o melhor presente, certamente não é chegar no segundo domingo de maio e enche-la com perfumes, jóias, roupas ou eletrodomésticos. O maior e melhor presente para uma mãe, sem dúvida nenhuma é aquele adornado de respeito, obediência, reconhecimento e muito carinho com os quais a tratamos dia a dia e constantemente. Porque para um filho que entende o valor de uma mãe, todos os dias são dela, por ela e para ela. Concluindo, deixo com vocês a arte poética “Vietnã” da escritora polaca Wislawa Szymborska (Nobel de Literatura), que ao meu ver, descreve com simplicidade, maestria e perfeição a singularidade do amor de mãe.

Izaqueu Nascimento

- Mulher, como você se chama?
- Não sei.
- Quando você nasceu, de onde você vem?
- Não sei.
- Para que cavou uma toca na terra?
- Não sei.
- Desde quando está está aqui escondida?
- Não sei.
- Por que mordeu o meu dedo anular?
- Não sei.
- Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal?
 - Não sei.
- De que lado você está? - Não sei.
- É a guerra, você tem que escolher.
 - Não sei.
- Tua aldeia ainda existe? - Não sei.

- Esses são teus filhos?  - São.

5 comentários:

  1. Arrasou. Belo texto. Bela homenagem às mães!!!

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  2. Que coisa linda e emocionante! Amei, meu amor.

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  3. Mais um de seus textos maravilhosos, que nos faz viajar por dentro da leitura cheia de sentimentos, obrigada, faço parte,sou mãe e o meu maior presente está contido dentro dessas doces linhas escritas com tanto amor.

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  4. Que texto belíssimo, parabenizão.

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