Arte & Cultura.

A dança das rugas no baile do tempo



Quantas vezes, no cenário da realidade das nossas vidas, nos recolhemos ao camarim para refletir sobre a atuação do nosso eu? Quantas vezes, na condição de réis, paramos para refletir em quantos tribunais posamos de juízes em vereditos que não nos dizem respeito? 

Às vezes, sem que nem percebamos, estamos nós, metendo o bedelho em histórias que não nos competem. É como se tivéssemos um direito que se estabeleceu não se sabe onde e nem por qual razão, de bater o martelo incisivo do julgamento na biografia do nosso semelhante.
Julgamos o que vestem e o que falam; julgamos o silêncio e a voz; julgamos o ato e a inércia; julgamos com um olhar ou uma frase; julgamos com mudez ou indiferença; julgamos tudo e todos. E é um julgamento constante e automático que fazemos, por algumas vezes, sutil, como o pincelar de uma pena, e por outras vezes, devastador, como uma palavra impiedosa, dita num instante de fúria ou sarcasmo, rasgando os sentimentos dos outros, como se nossa língua furasse o centro de uma ferida como um punhal enferrujado com veneno nas suas bordas, infeccionando-a friamente sem remorso ou piedade.

Quais foram os artistas que se valeram da arte para defender sua história, sua leitura de mundo, seu olhar do cotidiano, do comportamento inoportuno da crítica destrutiva (que pensou estar construindo quando na verdade estava desabando)? Em qual pintura está o dedo que aponta o erro? Em qual canção foi musicada o sentimento da hipocrisia? Em qual poesia se falou da trave no olho de quem apontou a mácula alheia? Em qual filme os atores encenaram a falta de condescendência de um ser humano para com o outro?

As rugas que se formam no nosso rosto demonstram as linhas da nossa caminhada. Há quem não as queiram. Há quem as expurguem, iludindo-se por achar que isso impedirá a chegada da velhice. A fotografia artística que mostra um rosto enrugado reflete não só um semblante, reflete uma história de vida única, pessoal e intransferível, mas ao contempla-la, reflete a nós mesmos.

Cazuza já cantava que "o tempo não para", e não para mesmo! Os ponteiros do relógio se deslocam para nos lembrar que a vida segue. O tempo é implacável e precioso para desperdiça-lo gerindo a vida alheia ao invés da nossa. Escreva no caderno da sua existência uma história digna de ser lida e apreciada. Você certamente irá se deparar com situações em que por algum instante páginas foram escritas em sonoridade medíocre, mas lembre-se que só você sabe qual a razão do tom da melodia de sua história. Cada um tem as diretrizes que motivaram suas dores e prazeres e não cabe a nós interceptar a complacência. Não se permita ser tão drástico consigo mesmo. Não será por isso que a canção do seu tempo será desprovida de beleza. Felizes são os que podem olhar no espelho as incontáveis rugas das suas muitas primaveras. Com choros e risos, a vida vai atingindo o ápice de aqui  ter estado e sido. Faça valer a pena do seu jeito. A beleza mór do nosso semblante não é fabricada com batom, rímel ou bisturis. Na realidade, não há mudança mais significativa do que a que vem de dentro pra fora. Como expressou Adélia Prado em seu texto "Erótica é a alma", o segredo não é reformar por fora, é acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior.  Infelizmente, a humanidade ainda busca se auto-afirmar através do externo. E mais uma vez abro espaço para a verdade presente na poética de uma canção - dessa vez do Zeca Baleiro em "salão de beleza" quando diz: Mundo velho, decadente mundo, ainda não aprendeu a admirar a beleza. A beleza que põe mesa, que deita na cama, a beleza de quem come, a beleza de quem ama, a beleza do erro, do engano e da imperfeição. Ou seja, o que é belo não está na carruagem, está exatamente dentro da abóbora.

Agora, você que está lendo este texto se pergunte (embora já saiba da resposta): Quem de nós foi, é ou será perfeito algum dia? Ninguém, não é mesmo? Portanto, vivamos nossas vidas e sejamos felizes com nossas escolhas, sejam elas pinceladas nas telas do equívoco ou do êxito.  Independente do quadro pintado inevitavelmente se fazer exposto na galeria da vida, eu desejo sinceramente que estas escolham possam estar acompanhadas da singularidade da beleza de muitas rugas, e é claro, de momentos esplêndidos proporcionados por muita, muita, muitíssima arte. 

Izaqueu Nascimento

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