Arte & Cultura.

O encanto da arte sacra



Paixões, máculas, remorso, redenção e refrigério. Eis como vejo quais são os 5 (cinco) pilares da sacralidade nas artes. Em tempos de feriado da semana santa, acho que convém expor neste artigo o esplendor do sagrado nas obras dos artistas que através da arte buscam interagir e dialogar com o divino. Sempre fui fascinado com a arte de cunho religioso, talvez pela minha criação evangélica, o sagrado sempre esteve no meu prisma no que se refere ao expressar de sentimentos. Lembro-me  com saudade do professor Firmino que ministrou no meu curso de artes na UFPB a disciplina de História da Arte. Foi com esse professor que aprendi a mergulhar bem fundo na tríade dos períodos em que as artes foram passando pelos estilos Clássico, Barroco e sobretudo Renascentista. Períodos em que o homem na sua essência existencial resplandecia o mistério do sobrenatural e buscava um escape para sua condição de pecador  cultuando os nuances da criação e sua divindade. Períodos onde o catolicismo se acentuava na busca do resgate do ser humano em temer o inferno e sonhar com o paraíso após a morte.

Conhecer a Itália e as cidades históricas do estado de Minas gerais sempre foi meu alvo enquanto apreciador das artes sacras. Os mosteiros, as igrejas de arquitetura antiga, as pinturas e as esculturas que exprimem o homem na dualidade de sua condição carnal e espiritual, sobrevivendo entre o bem o mal e buscando através das boas obras o perdão e  a remissão para atingir a paz de espírito, não só durante sua  existência, mas sobretudo após o cumprimento dos seus desígnios terrenos. Certa vez numa aula de campo no mosteiro de São Francisco no centro da Cidade de João Pessoa, um dos alunos fez a seguinte observação: "Professor, um pedreiro que faz uma coluna linda dessa, com esse acabamento tão perfeito, não é um pedreiro, é um artista". Devo dizer que achei a forma da colocação engraçada, porém oportuna, porque me remeteu ao texto de Bertolt Brecht: “Às perguntas do trabalhador que lê”. Sim. São elas. Essas  essenciais mãozinhas dos ditos “peões”  nos bastidores da obra que se agigantam enquanto ela vai tomando forma. Escravos, servos, homens braçais que se aliavam aos idealizadores para tornar real o sonho. Portanto, muito propositalmente considero aqui a parte braçal que faz com que a ideia vire realidade. Louvo os idealizadores, citando como referenciais mentes  abençoadas como Gaudi, Niemeyer, Michelangelo e da Vinci mas louvo também as mãos que captam essa essência criadora e colocam em prática aquilo que faz com que os olhos brilhem e se encantem ao se depararem com perfeições arquitetônicas como os jardins da Babilônia, O Palácio de Versailles e para fazer jus ao texto, a tal famigerada Capela Sistina no Vaticano. Essa pintura que explicita os pilares do sagrado que cito no início do texto.



E no viés do teor renascentista, o homem busca racionalizar o obscuro, interpelar na ciência o palpável, buscar respostas concretas para suas lacunas espirituais, fazer com que o cunho de seus atos alce o propósito iluminista da busca da recompensa dos seus atos, onde começa a questionar a religiosidade que vendia e ainda vende a ideia de que o paraíso espera por aqueles que semearam as boas obras durante as suas passagens pela terra. Os cinco pilares presentes ao longo dos séculos na arte que aqui exemplifico nos nomes de Botticelli, Caravaggio, Vivaldi, Aleijadinho e Donatello. Até na música e na poesia sacra, tais como as orações do salmista Davi, as de Francisco de Assis, as de Gregório de Mattos, Gandi e até Clarice Lispector.





Adaptando-se ao decorrer dos séculos, não só no aparato dos termos conceituais, desde o estilo rococó ao contemporâneo ou gótico muita coisa foi mudando, se difundindo e se aperfeiçoando na arquitetura, mas meus olhos sempre direcionam minhas lembranças ao clássico quando entro numa igreja. Observo os afrescos, a pintura, o esmero com que a montagem se compõe e acabo sempre lembrando da observação do meu aluno, pois mesmo que as formas das colunas em maior parte das vezes venham em moldes, esses acabamentos são milimetricamente constituídos com tal precisão que me hipnotizam.



Das paixões pelas quais somos atraídos constantemente. O excesso pelo que nos fomenta e nos alimenta a carne. Esse desejo latente que nos leva a degustar o "fruto proibido" e consequentemente, descambar no termo: "pequei pelo excesso". Excesso de prazer e luxúria que muitas vezes atinge o pós e o ápice da consciência e faz com que nos sintamos sujos, passando para o segundo pilar que é a mácula. Num tempo em que pecado saiu da conotação bíblica e se tornou peculiar, individualmente pessoal e intransferível. Ou seja, você está mais evoluído porque peca menos que eu ou as suas máculas são menores que as minhas, mas ao final das contas estamos lá, eu e você na mesma condição de maculados no tribunal da mesma consciência para o mesmo julgamento. Julgamento esse que atenua a sentença quando se mede o tamanho do remorso e do arrependimento. Remorso esse que nos faz rever atitudes e melhorar o nosso olhar sobre o outro e principalmente sobre nós mesmos. Essa redenção diária, amiúde, que é constantemente buscada, haja vista que para pecarmos basta estarmos vivos. Como somos imperfeitos, pecamos com um olhar,  com um gesto, com uma palavra mal dita. Sim. Pecamos. Mas é a busca pela transformação em algo que nos incentiva a estarmos mais próximos aos direcionamentos Crísticos que nos alivia a alma e o espírito. Desta paz que traz o refrigério. Ao passo que ao adentrarmos no campo sacro, nos sintamos também sacros. Sacros no amor, na solidariedade e no respeito uns com os outros. Porque independente da canção que ouço na missa, dos querubins que vejo esculpido nas igrejas, do rosto sofrido que se revela na dor das imagens sacras, dessa arquitetura que me remete ao espaço celeste, da oração poética que busca tocar o coração de Deus. Enfim, em cada tipo de arte sacra, é isso que vejo: todos esses pilares nos levam à uma busca incessante de ficarmos mais próximos ao acalanto do nosso espírito. E é assim que me despeço nesse texto. Desejando aos leitores uma Páscoa renovadora nos propósitos cristãos e sobretudo humanos. Porque embora sejamos seres imperfeitos, podemos sim, cada vez mais ficarmos próximos e amalgamados ao divino. BOA PÁSCOA! 

Izaqueu Nascimento



Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, 
de vossa alta clemência me despido; 
porque quanto mais tenho delinqüido, 
vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado, 
a abrandar-vos sobeja um só gemido: 
que a mesma culpa, que vos há ofendido, 
vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada, 
glória tal e prazer tão repentino 
vos deu, como afirmais na sacra história,

eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, 
cobrai-a; e não queirais, pastor divino, 
perder na vossa ovelha a vossa glória.

                                                                Gregório de Mattos

Do livro: "Livro dos Sonetos", LP&M Editores, 1996, RS





1 comentários:

  1. Parabéns pelo brilhante texto. .. espero que chegue a muitas pessoas. ..um verdadeiro presente de Páscoa

    ResponderExcluir

Tecnologia do Blogger.