Arte & Cultura.

Invocação à Arte



E sabendo Deus que tempos difíceis chegariam, permitiu que se apresentasse para nós a concepção da arte. Chegamos numa era crítica, severa e ferrenha. Obrigado Deus! Porque se não houvesse arte eu nem sei o que seria e nem como seria. Estamos vivendo e sobrevivendo em meio ao stress, correria,  compromisso de trabalho, relações conflituosas do cotidiano, onde o homem banaliza a vida do outro, ulcerando e desrespeitando o tempo do seu semelhante. Vemos pessoas se digladiando no trânsito, na família, em relações fadadas ao fracasso. Constatamos a descrença na representatividade política. Política que gera as leis que nos regem, leis que são descumpridas por muitos, descumprimento este que reflete toda uma situação que angustia, que enraivece o sistema, sistema que enraivece a população, população que vai buscando as brechas que se abrem para mostrar o retrato de um mundo cada vez mais desigual, injusto, falho e desumano.

Vamos para a arte!  A arte que promove a reflexão, cutuca a ferida com espasmo, sarcasmo, riso e revolta. Arte para pensar, despertar, agir e mudar. Mudar o que está em volta, mudar o mundo, mudar a si mesmo. Mudança mútua, precisa, desesperada e ansiosa. Transformação que como um redemoinho de cena, ação e propulsão, vai tomando corpo. Às vezes implícita, imperceptível, mas plantada, inserida e enraizada. Semente que vai brotando através de uma audição musical, do take de um filme no cinema, da fala da atriz encenando a esposa amargurada, desiludida e enciumada, que trama a vingança na nesga da luz do teatro.

Arte do desenho pintado na tela que choca os olhos, que fura a alma, que atravessa o muro e quebra os tijolos da indiferença, do poder que oprime, que espreme a secreção da chaga e ocasiona uma avalanche em cadeia de passos. Arte que invoca poesia, letra e rima. Arte que se perde nas palavras e se encontra no ato da leitura mútua, que identifica grego e troiano no mesmo balaio da vida. Arte que atravessa o próprio artista e pousa forte como flecha na ponta dos canos da maquinaria bélica suja de sangue. Arte que dá tapas no rosto que dorme para a essência do existir, do estar e do ser. Arte que alivia o cansaço físico do próprio espírito que busca no corpo a incisão da carne. Arte pra libertar, pra prender, pra sentir o pulsar da víscera que bombeia a veia aorta.

E eu aqui estou. Eu que escrevo arte, faço arte, reescrevo arte, clamo e reclamo a arte. Paradoxalmente, incansavelmente, imprecisamente, refletidamente e conscientemente. Sem sintonizar, sem ter que me explicar. Livre, solto, leve e pesado, quieto e inquieto. Eu que invoco a arte como quem busca a pérola jogada aos porcos. Eu que finalmente invoco a arte como quem precisa e busca, nada mais, nada menos, de suplicar por clemência, desde a hora primeira à derradeira, ajoelhando-se aos pés dela, com água salobra na pupila e balbuciando toda verdade poética da minh'alma ao olhar para a face do próprio Deus.

IZAQUEU NASCIMENTO

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