Arte & Cultura.

A Cultura de Massa “Popular” Brasileira





Na braçada da quebradeira ela remexe os quadris ao som do MC "fulano" que saiu lá da comunidade tal e hoje já tem carro, apartamento e casa com piscina. Mamãe me proibiu de ir pro baile funk porque disseram pra ela que lá só tem putaria. Fiquei bolada mas nem dei confiança. Fui escondida assim mesmo. Ela nem sabe que putaria tem em tudo quanto é canto. Aqui em casa ela só ouve pagode, sertanejo e forró universitário, e se eu colocar meu reggae ou meu funk ela manda logo desligar. Mainha só quer que respeite o som dela mas não respeita quem curte as "parada" que não tem a ver com o que ela gosta. Fico muito puta.

A fala acima é uma junção de depoimentos que a gente vai ouvindo que perpassam por entre os gostos pessoais e o "desrespeito" aos gostos pessoais. Na linha do "pré" julgamento atiram-se notas de 0 a 10 para o que seria ou não arte. A cultura de massa que deseduca ou instrui, a música que possui coreografia sensual, o que cai no gosto popular e o que encontra resistência no gosto erudito. O funk, o romantismo da sofrência, o pagode no churrasco do fim de semana, a cultura popular crescente que adentra na comunidade e que lota shows de duplas sertanejas pelo Brasil afora revelam a cultura da massa, do que o povão entende e assimila como sua arte e seus desdobramentos.





Já diz o ditado da massa que "a voz do povo é a voz de Deus". Há quem duvide que se Deus cantasse cantaria o popular e não o erudito e há quem diga que o ouvido dos anjos é para a sonoridade suave como também há quem diga que há quem diga tudo e nada. Há quem diga tanta coisa não é mesmo? Eu, porém digo que o mais importante é ouvir e prestigiar aquilo que nos apraz. Porque se começarmos a bombardear um estilo musical só porque  não nos identificamos com ele, a intolerância e o desrespeito irão ficar cada vez mais acentuados num país onde a diversidade cultural grita de forma extremamente expressiva, e não cabe aqui colocar uma lupa nas músicas "a" ou "b" o no artista "a" ou "b" para os identificarmos como sendo ou não referenciais de qualidade. Essa análise é amplamente relativa se levarmos em consideração as emoções que cada artista inscita no seu público seja ele em qualquer esfera em que esteja. É preciso que entendamos que a arte não se manifesta apenas no que a gente gosta. É preciso que entendamos que não somos detentores do melhor gosto cultural e artístico porque beiraríamos à presunção. E isso independe de classe social porque tem muita elite entrelaçada à cultura de massa. Como já disse Confúcio: "A cultura está acima da diferença da condição social". 


Arte é o que toca o público e flui no estado emocional do mesmo, nas suas vontades, exprimindo os seus desejos, relatando suas angústias, descrevendo seus conceitos, estilos e formas visuais. Eu posso não fazer parte do público que prestigia artistas como Anitta, Wesley Safadão, Ludmilla, Marília Mendonça, Mc Guinê ou tantos outros, mas tem muita gente que faz e que gosta deles. Acho presunçoso dizer q a verdade da arte está apenas no que eu aprecio e prestigio. Existe arte nos guetos, nas periferias, no funk, no samba, no pagode. Tem dançarinos, coreógrafos, músicos que trabalham com a massa. Ou seja, se a arte não se mostrasse democrática e ampla certamente não haveria razão de ser.





Já ouvi expressões perigosas ventiladas de preconceitos e afins para a cultura de massa. Coisas como Pseudo-arte, Sub-arte e até mesmo Arte-lixo. Como arte-educador, jamais poderia ser incisivo e desprezar com veemência uma aluna que quer dançar na boquinha da garrafa ou o quadradinho de oito numa gincana cultural da escola, mesmo sabendo que no âmbito pedagógico a arte precisa ter uma postura educativa, sei que não posso extinguir o fato de que muitas vezes a leitura cultural dessa aluna está concatenada a esse tipo de expressão de dança. Agora, o que posso e devo fazer é apresentar para ela outras expressões coreográficas e musicais nas quais mente e corpo sejam valorizados. Afinal, citando mais uma vez a grande Simone de Beauvoir, concordo inteiramente quando ela diz que "é preciso erguer o povo à altura da cultura e não rebaixar a cultura ao nível do povo". E acho que é exatamente esse o feeling. A palavra de ordem é respeito. Concordo sim em abarcar a diversidade cultural respeitando suas particularidades mas nessa troca difundirmos o que é ou não relevante para a nossa construção enquanto cidadãos e seres humanos, sobretudo, desprovido de preconceitos. Ou seja, quando for criticar a arte do outro a qual você julga não ser arte, permita-se silenciar um instante e trocar experiências sem o martelo incisivo da condenação. Eu tenho por certo que no final das contas pode ser que o resultado realmente te surpreenda e no menor nível do índice destas surpresas, te melhore, te exalte e te liberte.


Izaqueu Nascimento

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