Arte & Cultura.

A beleza na melancolia



“Hoje a melodia do meu coração foi comprometida pela incisão de um punhal impiedoso de um amor que foi embora e como eu não sei dançar vou grafitar poesia”.

Vi essa frase desenhada em forma de grafite num muro na cidade de Curitiba e sempre me recordo dela quando converso sobre a tristeza que se refugia na arte. A frase demonstra uma desilusão afetiva acompanhada de um atenuante para esquecer o triste fato. O grafite no muro mostrava um desenho triste mas minha reação ao vê-lo não foi de comoção, ao contrário, eu até ri. Assim posto, aproveito para abrir aqui um leque de opções para as grandes musas inspiradoras de vários artistas, entre elas: A dor e a melancolia, acompanhadas do sentimento de sofrimento, angústia e desilusão. Por algum tempo levantei em mim questões que indagavam coisas como: O que é mais tocante nas criações artísticas? Aquelas que foram concebidas pela tristeza ou pela alegria? Sei que isto não é via de regra, porque às vezes é difícil medir o parâmetro que distingue quais são as reações mais comum causadas pelas expressões de arte, mas tenho percebido que o sentimento de melancolia e desilusão, (dados a acontecimentos cotidianos em torno do planeta cada vez mais angustiantes) se torna cada vez mais corriqueiro.

O mundo está repleto de obras de arte concebidas num momento de infelicidade, sejam no campo cênico, na pintura, poesia, canção, dentre outros. São artistas que buscaram na arte uma contrapartida para expressar as intempéries da vida, suas agruras e ocasos que acabaram emocionando e tocando as pessoas, exatamente por ser um sentimento comum à humanidade. É fácil se identificar com uma desilusão amorosa, quem nunca sentiu o amargor dos dias sombrios? Quem nunca se sentiu oprimido com o sistema cíclico que a vida traz para ser desafiado em algum instante da existência? É comum a plateia se identificar com a dor do artista, ora porque já passou, está passando ou sabe que está suscetível a passar pelo mesmo que ele está explicitando na sua obra. A questão em voga é o talento e a sensibilidade para expressar a dor na arte. Tornar o sentimento bucólico em algo belo e singelo não é uma tarefa fácil. Não é simplesmente expressar o sentimento de melancolia, mas fazê-lo de tal forma que o que é sofrido reflita o belo apesar de triste.


E o que é o belo no ramo da contemplação humana? Qual é o tipo de beleza que se configura numa pintura de Frida Khalo? Que beleza é demonstrada nos versos mais “íntimos” do escritor e poeta Augusto dos Anjos? Que beleza se resplandece por trás das desilusões do cantor e também poeta Renato Russo? Que espécie de peculiaridade há na beleza que se faz presente na poesia triste de Florbela Espanca?

Tal como a frase do muro, eu digo que não sei dançar com desenvoltura essa valsa triste que toca no mais intrínseco salão de baile da alma humana para responder com exatidão magistral em que beleza se fixa a tristeza, mas lanço os acordes da coreografia para que possamos estar ao menos no lugar dos autores para elucidar o foco dessa melancolia, cada vez mais tão perto de nós. Por exemplo: o que é belo em versos que chocam as notas da mesma orquestra do referido baile quando lemos “Profundissimamente hipocondríaco, este ambiente me causa repugnância. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à  ânsia, que se escapa da boca de um cardíaco”, ou “Eu sou talvez a visão que alguém sonhou. Alguém que veio ao mundo pra me ver mas que nunca nessa vida me encontrou”, ou “Dissesse que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa mas a vizinhança inteira”. Apesar do sentimento de apatia e desesperança se fazer nítido, o que se obscura na alma humana muitas vezes diz muito mais do que o que parece dizer. De todo modo, creio que o artista não está para dar explicações, creio que o artista instiga o prisma dos que o contemplam para que eles busquem a beleza necessária para a sua própria melancolia. Afagando a dor, tornando-a uma amiga que traz a maturação e o aprendizado, abrindo a porta das suas casas “mentais” e “sentimentais” no sentido de  convida-la para tomar o chá das cinco, tendo por certo de que se trata de uma visita inevitável, e já que não há como evita-la que tente ao menos ornamentar a sala da melancolia para tornar essa visita ao menos suportável. E para o autor do grafite no muro Paranaense eu deixo a canção “de mais ninguém" tão bem interpretada por Marisa Monte no álbum Verde, Anil, Amarelo, Cor-de Rosa e Carvão. Ou seja, ao meu ver, nada mais liricamente belo do que colocar a dor no meio das cores para que a aquarela da vida busque atingir a sua plenitude.

Izaqueu Nascimento


“Se ela me deixou, a dor é minha só não é de mais niguém. Aos outros, eu devolvo a dó. Eu tenho a minha dor. Se ela preferiu ficar sozinha ou já tem um outro bem, se ela me deixou a dor é minha a dor é de quem tem. É meu trofeu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor, aos outros eu devolvo a dó eu tenho a minha dor. A sala, o quarto, a casa, está vazia, a cozinha, o corredor. Se nos meus braços ela não se aninha, a dor é minha”. (Arnaldo Antunes)


1 comentários:

  1. Afinal, como se pode valorizar o valor de um caminho iluminado, se nunca soube o que é estar no escuro!!!!!

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